quarta-feira, 4 de julho de 2012

Conto de Julho

Então galera, de vez em quando escrevo alguns contos e poemas.
Há 7 meses comecei a escrever um livro o que é BEM mais complicado e demorado, mas um dia acabo ele e aviso pra vocês.

Todos os meses terá um conto ou poema novo pra quem gosta de ler, ok?
Espero que gostem, e não esqueçam de comentar !


                                                            A Apólice




Ouvia apenas seus próprios passos na rua molhada. A chuva caía fina naquela noite e o vento cortava-lhe o rosto. Reparou que as casas por onde passava estavam quietas, nenhuma luz...nenhuma atividade.
Paola o esperava no carro estacionado a duas quadras dali e se bem a conhecia, estava em cólicas.
Não era impressão, não havia ninguém na rua, aquelas casas estavam abandonadas.
- Estou louco - sussurrou ele.
Olhou a hora no celular : 21:28
"Ainda é cedo. Onde estão todos?"
Estava sozinho. Nenhum animal, nenhum carro, nenhum passante, nada.
O medo tomou conta dele. Sabia muito bem o que tinha feito, e temia estar prestes a pagar por isso.
Naquele momento uma luz forte e brilhante ofuscou seus olhos.
O único som que ouvia, eram as batidas do seu próprio coração.
Seus pés estavam cada vez mais leves e não os sentia mais.
- O que está acontecendo?
Apavorado,tentou gritar mas não conseguiu.
"Estou paralizado!"
A chuva no rosto o despertou do desmaio e assustado com o barulho da freada, se pôs de pé como um gato.
Olhou para o carro e o viu se afastar. Observou as casas e podia ver a vida correndo dentro delas.
Lembrou-se de Paola esperando no carro e do que tinha feito naquela noite.
Com os passos apressados virou a esquina e tentou se lembrar do que acontecera depois que saíra da casa da Sra. Laura.
Quando avistou o carro estacionado, correu para ele. Seu suor se misturava com a chuva fina.
Abriu a porta do carro e se desculpou com Paola.
- Desculpe querida, aconteceu algo estranho...
Paola o interrompeu indignada:
- Sabia que não teria coragem! Você é um frouxo, sempre foi! Volte lá e faça o que tem que fazer!
Ele não entendia o que ela estava dizendo.
- Eu fui, está feito! - disse ele confuso.
Paola deu uma risada sarcástica.
- Foi aonde? Você saiu do carro deu uns passos e voltou. Covarde é o que você é!
Ele olhou o relógio, que marcava 19:45.
Ficou por uns minutos tentando entender o que havia acontecido enquanto Paola esbravejava ao seu lado.
Olhou para a mulher descontrolada e a segurou firme pelos ombros encarando-a.
- Depois que saí do carro o que aconteceu? Diga! O que aconteceu?
Ela se calou estranhando a reação dele, e respondeu com a voz trêmula:
- Você me beijou, desceu do carro foi até a esquina e voltou. Fiquei me perguntando se você havia esquecido algo, mas vi no seu rosto que você não cumpriria o que me prometeu.
Indignado, ele saiu do carro e fez o caminho de volta.
Andava apressado mas se controlava para não correr, não queria chamar a atenção.
Parou em frente ao portão da casa da Sra Laura.
Não sabia o que tinha acontecido mas tivera ali há uma hora, tinha certeza!
Deixara a porta da casa aberta. Não teria dificuldade em entrar e constatar que havia feito o "serviço".
Como da primeira vez suas pernas travaram ante a porta.
Na verdade não queria fazer aquilo, mas Paola o dominava. Estava entregue àquela mulher.
Mas agora estava feito, ele só precisava girar a maçaneta e ver a velha ensanguentada no chão daquele quarto.
Suas mãos trêmulas suavam dentro da luva preta. Não queria ver aquele cenário novamente.
Envolveu a maçaneta e a girou, sem sucesso.
"Trancada , não pode ser! "
Pelo seus cáuculos, levariam uns dois dias para achá-la.
Se escondeu embaixo de uma das janelas. A luz da sala ainda estava acesa como ele havia deixado.
Olhou através do vidro. A sala estava vazia e não ouvia barulho de vozes.
" Todos aqueles golpes, tenho certeza de que a deixei morta. Talvez não tenha girado direito a maçaneta"
Resolveu tentar novamente.
Ouviu barulho de passos e se escondeu novamente.
- Quem é? Quem está aí?
"É a Sra Laura!!, é a voz dela!"
Incrédulo, correu até a porta e arriscou:
- Sou eu... seu genro. A voz quase não saía.
A porta se abriu e a Sra Laura estava ali de pé diante dele, com o mesmo traje de dormir que ele a havia encontrado antes. Nem um pingo de sangue na camisola branca.
Ela lhe deu o sorriso de sempre.
- Entre meu filho, está frio aí fora. Paola não veio com você?
Essas mesmas palavras ele havia ouvido hoje.
Ele se sentia mal. Seu estômago parecia ser a única parte viva em seu corpo. Ia vomitar, e a Sra Laura percebeu sua palidez.
- Você está bem, meu filho? Aconteceu alguma coisa? Venha entre, vou lhe buscar um copo d'agua.
Ele entrou amparado por sua vítima, podia sentir suas mãos doces em torno de sua cintura e o carinho com que olhava pra ele.
- Agora me diga meu filho, aconteceu alguma coisa? Você está me deixando nervosa, onde está Paola?
- Ela está no shopping, fazendo umas compras pro natal.
- E você a deixou sozinha? Sabe como ela é relaxada com a saúde, vai ver nem levou a insulina.
- Lilian está com ela e a insulina também, não se preocupe.
D. Laura olhou pra ele curiosa.
- Então o que aconteceu, por que veio me ver a essa hora? Desembuche logo meu filho,sei que algo grave aconteceu.
- Lidia e Marlene não estão aí?
- Não. Hoje é sexta feira e as dispenso pra ficar sozinha no fim de semana. Essas duas parecem soldados atrás de mim a semana toda. Gosto de ficar sozinha e elas não me deixam.
Ele se sentia tonto, todo esse diálogo estava sendo repetido pela segunda vez, e se ele estava certo, seria nessa hora que ela lvantaria do sofá dizendo que ia até o quarto pegar seu remédio da noite.
- Olhe se acalme, vou até o quarto pegar meu remédio da noite e quando eu voltar, quero que me fale o que está afligindo você.
Não a seguiu até o quarto desta vez.
" Que diabos está acontecendo? Seja lá o que for tenho que manter a calma."
A Sra Laura havia ficado viúva há 5 anos e muito bem de vida.
Paola era sua única filha e ela se preocupava em deixá-la muito bem. Por isso além da herança que deixaria, fez um seguro de vida em nome da filha.
- Viu como não preciso daquelas duas? Além do mais, tenho saúde pra dar e vender.
- Mas e esse remédio?
- É apenas um complemento vitamínico que a nutricionista passou, é muito bom.
Ela parecia forte e saudável. Paola tinha razão quando dizia que ela ainda duraria tempo demais.
-Agora me fale, por que veio aqui?
- Eu estava passando aqui perto, estou fazendo hora para pegar Paola no shopping e não me senti bem. Pensei que a senhora ainda estaria acordada e não se importasse em me receber.
- Ora, fez muito bem! Você pra mim é como um filho e sempre que precisar estarei aqui. Mas você está melhor? Vá procurar um médico, prometa-me que irá fazer isso! Já basta a minha preocupação com Paola, você não sabe como fico nervosa com essa diabetes dela. Minha irmã também sofria disso e morreu muito nova. É muito triste ver uma moça bonita e nova como Paola, tendo que carregar insulina pra lá e pra cá.
- Sim é muito triste, mas não se preocupe, quando não estou ao lado dela, Lilian está. Foi pra isso que a contratamos.Bem, eu já vou indo. Não quero deixar Paola esperando e já me sinto melhor, muito obrigado pelo carinho. Posso lhe dizer uma coisa?
- Claro, diga.
- A senhora disse que sou como um filho. Hoje percebi que a senhora pra mim, é como uma mãe que nunca tive.
Se aproximou dela e deu um beijo em sua testa, deixando D. Laura emocionada.
- Vá meu filho, e não deixe de marcar o médico. Qualquer coisa me ligue.
Ele já estava saindo quando disse:
- Talvez ainda essa noite eu e Paola viajemos pra casa de praia. Se formos mesmo,ligaremos de lá pra senhora.
- Mas você não está bem pra dirigir até lá.
- Não se preocupe estou me sentindo ótimo, deve ter sido uma indisposição.
Fez o caminho de volta e tudo parecia perfeitamente normal.
Parece que alguém havia lhe dado uma segunda chance e ele iria agarrá-la.
Quando virou a esquina, viu o carro estacionado e Paola atenta olhando para ele.
- Então, como foi lá? - perguntou nervosa.
- Foi tudo como combinamos. Agora ouça com atenção: Vamos para a casa de praia. Quando chegarmos lá, ire-mos até o clube e comentaremos que chegamos na cidade à tarde. Ninguém poderá dizer o contrário. Quanto mais natural parecer quando isso tudo estourar, melhor.
- Você conseguiu! Estamos ricos! Aonde ela estiver, compreenderá que somos novos e merecemos uma vida melhor.
Paola pulava no banco e o beijava ao mesmo tempo.
Na tarde do dia seguinte, a polícia encerrou o caso. O laudo médico dizia que a causa mortis havia sido deficiência grave de insulina associada à elevação do glucagon e demais hormônios contra-reguladores.
As investigações na casa de praia haviam sido encerradas e os peritos não encontraram evidências de crime.
D. Laura o chamou para tomar café.
- Não é por que está atrasado, que vai sair sem comer nada. Não se esqueça que hoje iremos ao cartório, não quero correr o risco de morrer e tudo que tenho ficar para o governo. Por falar nisso, ontem chamei o corretor de seguros e passei a apólice para o seu nome.
- A senhora viverá ainda muitos anos, tenho certeza. Mas não se preocupe, na hora do almoço venho buscá-la.
Deu um beijo em seu rosto e saiu.

Helena Dias